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de 3/7/2013 à 3/8/2013.
HERDEIROS | Felipe Oliveira Mello

Desgastes e heranças
Quando vi o rosto de Catherine Deneuve, até hoje sinônimo de um vigoroso cinema francês, tomado por fios de cabelo dispostos de maneira circular como que numa espécie de parasitação realizada a partir de um salão de beleza, ficou evidente para mim a estranheza da série Herdeiros. O artista paulistano Felipe Oliveira Mello cria para a individual no dconcept escritório de arte um conjunto de intervenções sobre fotografias que lidam com o clássico e a modernidade, o íntegro e o corrompido, a idealização e o simulacro, entre outros vetores poéticos.
É fácil para os mais nostálgicos se prenderem a um exercício de name-dropping, tentando acertar a identificação de muitas das antigas divas de rostos agora encobertos por cabelos, pérolas e correntes de tom enfaticamente banal. Há apostas fáceis, como as de Brigitte Bardot, Grace Kelly e Jane Fonda, algumas com maior grau de dificuldade, como Claudia Cardinale, Anita Ekberg e Marlene Dietrich, mas o que falar de Annette Funicello e Marlo Thomas?
Por meio de um obsessivo exercício de bordar, por exemplo, o que faz das intervenções trabalhos que passeiam pelo escultórico, pela assemblage e pela colagem, Mello provoca no conjunto uma metamorfose que se aproxima do anamórfico, uma recriação algo bizarra. As fotografias têm reforçadas o caráter vestigial da linguagem, contudo tais resíduos de memória se corporificam em fiapos de vida liquefeitos, desmanchados, incompletos. A evocação do glamour dos anos de ouro do cinema, em especial via Hollywood, é presentificado de modo crítico, como se a arte dos fotogramas em movimento se mantivesse num estado de semivida, a rememorar os bons tempos do século passado e a lançar mão de expedientes duvidosos como o 3D e a pirotecnia de efeitos especiais apenas para sua subsistência por meio de engrenagens enferrujadas e estratégias simplórias.
Entretanto, o retrato hoje adquire contornos pouco imagináveis nos dias de ouro da cinematografia utilizada pelo artista. Não à toa a mais influente rede social corrente chama-se Facebook. "A fotografia, em virtude de sua possibilidade de tanto congelar expressões como sequenciá-las, pôde captar e representar muito bem esta comunicação do rosto. É sem dúvida uma das razões da proliferação do retrato na vida contemporânea trazida pela fotografia. Da foto carnet aos paparazzi, passando pela foto de estúdio, pela propaganda política e pela recordação familiar, vivemos rodeados de retratos fotográficos por todos os lados. Estes constituem um dos principais instrumentos de representação hoje em dia" 1, alerta o crítico de arte Gerardo Mosquera. "Nesta era do retrato nunca vimos cara a cara a maior parte das pessoas que conhecemos. Vão do político que nos desgoverna à estrela do cinema e às relações da internet. Tal é o peso da fotografia hoje em nossas vidas que até aqueles que conhecemos pessoalmente às vezes são recordados mais por uma imagem fotográfica gravada em nossa memória do que por seu rosto real." 2
A passagem do cinema clássico para o moderno, via "novas ondas" mundo afora, também ajuda a sedimentar o incômodo método plástico-visual de Mello. ?A cenografia do cinema clássico consistiu pois em dispor obstáculo num estúdio, depois as luzes, depois os trilhos para a câmera e, em último lugar, os atores. Os grandes atores desse cinema são simplesmente aqueles que esbarram menos nos obstáculos? 3, argumenta o crítico Serge Daney. "Esse cinema cativou o espectador por mais tempo que qualquer outro, porque ele jamais cessou de lhe propor saídas. Aberturas para respirar e folgas para confortar." 4


Para Daney, a produção icônica dessa era dourada do cinema fica menos pertinente com a eclosão de um outro olhar, mais consciente da fragilidade do humano _ após a sedimentação das imagens recorrentes dos desastres da Segunda Guerra, como a dos corpos calcinados em Hiroshima e Nagasaki e a dos cadáveres empilhados nos campos de concentração na Europa destroçada, mesmo efeito que desembocará na desconcertante plástica da pintura de Francis Bacon e Lucian Freud, é bom destacar _ e que dará ao espectador uma posição mais especular. "Parede, folha de papel, tela, quadro-negro, sempre um espelho" 5, descreve o teórico francês. "O que fazia com que Garbo e Dietrich fossem estrelas é que elas olhavam ao longe alguma coisa que não era, afinal, inimaginável. A modernidade começa quando a foto de Monika, de Bergman, circula entre toda uma geração de cinéfilos sem que Harriet Andersson se torne, no entanto, uma estrela." 6
Pois bem. Hoje Andersson está longe de ser mítica como Marilyn Monroe, mas não deixa de ter um status cult. As movimentações nostálgicas fazem com que uma aura vintage seja buscada não apenas no cinema comercial e no mais fácil de outras artes, mas também na publicidade e na indústria de consumo em geral. Nesse sentido, a ação algo agressiva de Mello sobre as imagens de celebridades de outros tempos _ menos esmiuçadas que as Paris Hilton atuais, mas assim mesmo radiografadas ao extremo _ furando, pontuando, cerzindo um pôster fotográfico adquirido via internet, por vezes com a identificação do site, reforça, e muito, uma crise da representação. As belas faces, assim, exibem agora um status concreto de desgaste, de deterioração, uma função completamente inutilizada.
Então, a arte de Felipe Oliveira Mello ultrapassa as questões pós-modernas, como o pastiche, e reverbera traços contemporâneos como o efêmero e o virtual. Para isso, pode recorrer a registros de belezas inquestionáveis, como Cardinale, já citada, mas também Veronica Lake, Jacqueline Bisset, de décadas bem apartadas. As intervenções feitas manualmente têm algo de garatujas, guardam um desrespeito salutar. Tal abordagem efetiva um olhar que percebe uma originalidade almejada, mas perdida em algum vácuo temporal. Atesta uma perplexidade vigente, mas que procura, de modo despojado, uma reinvenção por meio do mais corriqueiro.
Mario Gioia

1. MOSQUERA, Gerardo (org.), Interfaces – Retrato y Comunicación. Madri, La Fábrica, 2011, pág. 8. Tradução do autor.
2. MOSQUERA, Gerardo (org.). Idem, p. 8
3. DANEY, Serge. A Rampa. São Paulo, Cosac Naify, 2007, p. 230
4. DANEY, Serge. Idem, p. 230
5. DANEY, Serge. Ibidem, p. 232
6. DANEY, Serge. Idem, p. 232