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5 + 5
akira umeda - yurei
alzira fragoso - encarnado
ana kesselring - corps du monde (corpos do mundo)
ana michaelis - ilusão
ana nitzan - ...foi num dia, no jardim
ana nitzan - sublimação
ana paula lobo -"e se houvesse ainda e sempre e somente palavras"
antonio sobral - arrebentação
antonio sobral - força latente
antonio sobral - perestroika
carlos emilio - cintilações
catherine ferraz - catherine, la tête dans les nuages
cecilia dequech - solitude
cristiane mohallem - canção da estrada
cristiane mohallem - céus são céus
cristiane mohallem - entre mãos: pinturas
daniella liu herzog - transpaisagens
dconcept hospeda Aluga-se
dione veiga - solutilis
edu rodrigues - geografia
edu rodrigues - válvulas
estrela do pari futebol clube
felipe o. mello - majesty
felipe oliveira mello - herdeiros
flavia vivacqua - flavia vivacqua
gabriel nehemy - azul, cinza, rosa
juliana garcia - avulsos em série
katia fiera - e quem quiser que conte outra...
katia fiera - katia fiera
kika nicolela - exquisite corpse video project
lucas lenci - aifonepics
luiz sôlha - cineramas
marcos vilas boas - cenários
marcos vilas boas - horizontes retos
marcos vilas boas - meio-dia
marcos vilas boas - na altura dos olhos
marina ayra - bruma espuma ao amanhecer-
marlene stamm - da aurora ao crepúsculo
marlene stamm - silêncio
Mosaico
néle azevedo - o que pode um corpo?
nicole mouracade-nin - cadernos de zizi
no limite da linha - coletiva de desenho
patricia bigarelli - silêncio
renata cruz - classificação das espécies
rosângela dorazio - pelas paredes
rosilene fontes - uma historia da infância
teresa berlinck - biblioteca ilustrada, sábado e domingo
vera martins - por um fio...ETERNIZADO
vicente de mello - noite americana - interiores
victor lema riqué - el bosque II
yara dewachter-quase verdades
yolima reyes - sorbitos
5 + 5
de 21/11/2012 à 21/12/2012.
Cinco espelhos do outro

O século 21 é a era das relações. Nem tanto entre as pessoas, mas entre as coisas. Sobretudo, entre as imagens. Colocamos tudo "em relação", linkamos, conectamos. Pensamos e conhecemos a partir de relações estabelecidas - historicamente, social e culturalmente. Na esteira desses modos de percepção e aprendizagem, e como vivemos ao mesmo tempo imersos num imaginário fotográfico, desenvolvemos o hábito de relacionar imagens. Uma fotografia já não diz mais do que mil palavras. Da associação entre duas ou mais fotografias, porém, decorrem mil e um significados.
5+5 é uma exposição que traz tudo isso à tona. E mais. Por que há, no conjunto de obras que os dez fotógrafos participantes escolheram para expor, um predomínio de imagens espelhadas? Por que cada um dos 5 primeiros integrantes da mostra convidou um fotógrafo profissional (leia-se "de moda, de publicidade, de arquitetura, de still etc") para o dueto proposto no projeto? Por que a figura humana está deliberadamente ausente das fotos - ou, quando eventualmente surge, é retratada muito de longe ou quase abstraída pela proximidade?
As relações criadas entre as obras fotográficas dos 5 artistas que convidaram outros 5 nesse jogo de espelhos que se tornou a exposição 5+5, acolhida pelo dconcept, são de ordens diversas, como não poderia deixar de ser. Entre Ana Nitzan e Pietro Ghiurghi se estabelece uma conversa acerca do duplo - que pode ser miragem, fabricação, ou até a gênese de todas as coisas. Enquanto Catherine Ferraz e Marcio Simnch dialogam metaforicamente, Edu Rodrigues e Guto Seixas o fazem à maneira metonímica. Da folie a deux encarada por Lucas Lenci e Fran Parente, sobressai a obsessão mútua pela simetria - uma simetria que esconde muitas particularidades assimétricas. Marcos Vilas Boas e Thelma Vilas Boas compartilham o olhar noturno.
Quando analisadas individualmente, as obras parecem pertencer, todas, ao universo da fotografia coloquial, conforme teorizada por Charlotte Cotton. Em seu livro A Fotografia como Arte Contemporânea, a teórica da arte defende que a substância da vida diária é o tema das imagens desta família. Uma trivialidade do objeto retratado nas fotografias reunidas em 5+5 - o céu, uma árvore, um estacionamento, a praia, escadas rolantes, um edifício mal iluminado à noite, um espelho numa moldura precária prestes a desabar da parede etc. - contrasta com sua natureza especulativa. Para Cotton, há algo de anticlimático e inacabado nesta forma de fotografia.
Por outro lado, ao se tornarem dípticos a quatro mãos cada, de fotografia vernácula, as imagens passam a narrativas de forte conteúdo onírico ou teatral - e até mesmo fantástico: os irmãos Vilas Boas geram uma espécie de reversibilidade (ou espelhamentos infinitos) entre as ideias de "cenário" e "escombro". O quebra-mar da fotografia de Marcos e o esqueleto arquitetônico flagrado pelo olhar de Thelma oscilam entre a aparência de miniaturas e de sonho prestes a se dissolver em brumas. Tão-logo o observador ajusta sua visão para a provável dimensão dos objetos retratados nas fotos e para o contexto material do entorno destes objetos, as duas imagens ganham nitidez e concretude assombrosas, a ponto de se imaginar, diante dos dois "cenários reais", que outro ajuste do olhar poderia garantir que se enxergue o que está escondido nas áreas mais escuras das duas fotos. Blow Up.
As paisagens de Ana Nitzan e Pietro Ghiurghi se opõem e se completam de outra forma. Uma retrata a planície, outra retrata a praia, mas ambas como que suspendem o assunto retratado: Nitzan por meio de uma costura da ampliação fotográfica, que transforma o campo em um horizonte convexo e deixa a árvore do primeiro plano em suspensão, já que a costura eliminou o tronco da árvore. Ghiurghi torna o horizonte côncavo, devido à lente utilizada, que promove um abaulamento nos cantos da imagem, criando também uma suspensão. Em suma, o encontro entre dois olhares agrega inúmeros significados aos pares de obras expostos em 5+5, que estão aí para serem explorados, descobertos ou simplesmente fruídos.
Juliana Monachesi
novembro de 2012