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catherine ferraz - catherine, la tête dans les nuages
de 26/9/2012 à 27/10/2012.
Fabulações de Catherine

Comecemos pelos poréns. Ou melhor, contra eles. Em relação às ressalvas sobre a interseção entre moda e arte, ou entre publicidade e arte, estes são universos que se retroalimentam e se canibalizam no mínimo desde Andy Warhol. Sobre o clichê do antidecorativo - segundo o qual uma obra de arte, para ser levada a sério, tem de ser feia e, de preferência, grande demais para caber em uma casa ou então simplesmente efêmera -, eis que a ditadura do anti (antimoderno,
antiarte etc) vai dando sinais de esgotamento conceitual e estético, e o mundo da arte contemporânea volta a gozar da possibilidade de convivência entre o feio e o lindo de encher os olhos.

Por último, acerca da restrição ao universo infantil como tema de arte adulta, ninguém precisa ter lido as obras completas de Freud para saber que as mais antigas vivências infantis são constantemente reconstruídas pela consciência. Quem já quis fugir de um problema na
vida bem sabe o abrigo temporário que se encontra no mundo da fantasia.

Evocar Freud no contexto da exposição "catherine la tête das les nuages" não é acaso. Sim, trata-se de paixões aqui. Sobretudo, se trata de um mergulho nas profundezas do inconsciente, dos sonhos e dos desejos.
Notoriamente, ainda pensando com Freud, sonhar é também recordar.
Aqui, como na análise de profundezas, cenas primordiais não são reproduzidas como lembranças, são resultados de construção.

A ante-sala é puro sonho. Como se visitássemos o poema de Elisabeth Bishop (I Wish I Lived up There), um menino sonha que mergulhou na fresta descascada do papel de parede e empreende uma viagem
fantástica. Passar à sala seguinte, atravessando a vila de Flávio de Carvalho, poderia ser experimentado como se acompanhássemos o menino que sonha em sua viagem. Mas lá está de novo o título da exposição, a
lembrar que a cabeça nas nuvens é de Catherine. Entramos, portanto, nesse universo de fabulações que é tão característico da obra da artista.

E vemos primeiro uma coreografia de braços e mãos, que ora seguram firme a sombrinha que permite voar, ora protegem um ícone danificado.
Aqui sustentam contra o céu uma nuvem de
algodão-doce, ali empunham uma lança sem temer as intempéries do inverno europeu (e mesmo tendo o
resto do corpo ao abrigo do frio). Esta dança imprime o ritmo à experiência de toda a exposição, evidenciando que as fotografias de Catherine Ferraz contam uma infinidade de histórias de acordo com as inúmeras possibilidades de rearranjá-las e reagrupa-las entre si.

A segunda sala é a explosão dessa potência narrativa. Espelho (2012) mostra uma represa onírica encrustada entre céu e terra onde se desenrola uma história absurda envolvendo um cachorro e uma
plataforma. Bruna e o Ratinho (2010) conta uma saga urbana de tons sombrios. Noa e a Maçã (2011) encena um jogo de criança brincando de adulto em sua casa de bonecas que ao mesmo tempo é também ruína. Um
ocaso urbano que ganha um recomeço poético.

No canto da sala, um conjunto de quatro imagens coloca em surrealista convivência o néon de um cassino em Saint Martin que tinha nome de princesa, mas afirmou-se masculino quando o seu complemento feminino se apagou, com os amantes flagrados em Bali à distância por uma câmera descartável, o que conferiu qualidade impressionista à ampliação, com outro casal que teve o rosto encoberto por um incidente magritteano, e ainda com outra figura feminina que também tem a cabeça nas nuvens.

O canto oposto está recheado de mais aventuras e fábulas a serem descobertas pelo visitante, além de encerrar a imagem de menor formato entre todas as fotos expostas, mas que guarda, talvez, a maior carga
simbólica entre todas. Ali na penumbra da sala do acervo a obra Maria e o Cisne (2011) nos sussurra duas das maiores verdades da vida. Que no fim e ao cabo, assim como no começo, estamos sempre sozinhos. E que
o mundo interior de cada um, quanto mais rico, mais definitiva e categoricamente afugenta a solidão.

Juliana Monachesi
setembro de 2012