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renata cruz - classificação das espécies
de 2/6/2012 à 30/6/2012.
Criando mundos, e modos de atuar no mundo da arte

Porque a frase, o conceito o enredo o
verso (E, sem dúvida sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Caetano Veloso



O uso de frases soltas que compõem os desenhos de objetos de Renata Cruz não passará despercebido pelo público que visitar sua exposição. Ou por quem conhecer seu trabalho por meio de suas brochuras, edições cuja circulação é facilitada por trocas propostas pela artista. Trata-se de pequenas inserções em cada desenho, o que parece, à primeira vista, ilustrar o campo visual ou por ele ser completado, uma espécie de cumplicidade literária-visual que forjaria o desmanche de atribuições de cada categoria artística. Contudo, ao passar por alguns desenhos e ler suas respectivas frases, é possível perceber que ambos carregam linguagens intransitivas. Retiradas de obras literárias e desmembradas pela artista, a colagem de frases nas páginas das brochuras parece igualar-se à poemas em prosa. Potencializadas em campo isolado, cada frase é dissociada de sua narrativa original, tornando-se vozes genéricas, sem suas personagens, sem chão e temporalidade específicos. "Escapou do tempo. É um sobrevivente?" são frases que acompanham os desenhos de uma garrafa de refrigerante vazia e uma folha de árvore seca.

O mesmo ocorre com os objetos que a artista recebe de suas trocas. Sua proposta se resume da seguinte maneira: por um objeto pessoal de valor simbólico, ela oferece uma brochura com desenhos de objetos da mesma natureza, intercambiados em outras ocasiões. Sendo pequenos, a escala de todos é mantida sobre o papel, de modo que as brochuras podem parecer catálogos de uma coleção de coisas sem valor explícito, desenhos verossímeis veiculando valores subjetivos. Neste quadro, as brochuras acabam sendo a moeda de troca por meio da qual a artista recebe objetos aparentemente sem valor, mas que não são outra coisa que a matéria prima de seu trabalho. E os desenhos, afiliados ao seu procedimento de trabalho, são meios que aproximam-no da esfera relacional da arte, transformando o espectador em participante-ativo, como dizia Hélio Oiticica. Assim, em trocas que parecem ações anódinas, a artista fundamenta seu modo de relacionar-se com a arte e seus interlocutores, transformando objetos corriqueiros na ferramenta que engendra ações subjetivas e agregando valor a cada peça inserida em sua coleção. Uma caixa de fósforo, uma paçoca Amor, um preservativo, um pequeno sachê de chá, aromatizantes; assim como um grampo de cabelo, uma escova de dentes, uma fita métrica ou pinça para sobrancelhas são deixados com a artista. Instaura-se nesse momento a possibilidade de burlar convenções, redefinindo tanto o ato de relacionar-se com o outro, quanto códigos de conduta instituídos. Ou a possibilidade de reavaliar o estatuto da representação, do mercado, da utilidade das coisas. A artista fabrica seus próprios valores e circula-os mantendo contradições aparentes em seu modo de atuar no mundo. Seu trabalho é a incessante tentativa de operar no contra fluxo de paradigmas que fomentam à domesticação de nossas relações e formação subjetiva.
Em suma, enquanto coleciona objetos e frases que chegam até ela por meio da troca ou apropriação, Renata Cruz arquiteta bases sólidas para sua relação com a arte. Já que a continuidade desse trabalho é voluntariamente condicionada à fabricação de lugares e histórias incompletos, sua concretude não se forma de modo linear. Já que a continuidade desse trabalho é voluntariamente condicionada à fabricação de lugares e histórias incompletos, sua concretude não se forma de modo linear. É preciso pensar na organicidade do mundo e na ressignificação da sintaxe para adentrar em sua maneira de atuar no mundo da arte.

Josué Mattos