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de 30/7/2016 à 27/8/2016.
Cineramas - entre o olhar e as ilhas Cágarras.

“Numa vertigem, exausto depois de discutir horas a fio o papel atual da pintura – exíguo, para dizer o mínimo, segundo o crítico estrangeiro que viera ao meu atelier – tomei um fôlego súbito ao entrar no estúdio de Luiz Sôlha. Senti na garganta o impacto dessas pinturas tão ostensivamente figurativas, quase hiper-realistas, cuja força se acentua por um olhar pensativo: elas retramam todas as mediações implicadas na circulação da arte.

Sôlha que sempre teve o domínio virtuoso da figura, soube transformar essa facilidade em discurso plástico denso, muito pertinente num circuito que opera verdadeiros passes de mágica.”

Luiz Solha cresceu numa cidade de praia voltado para dentro de um cinema. À sua frente tinha um mar e horizonte cheios de monotonia, característicos das praias dessa
região do Litoral Sul do Estado de São Paulo.

Cinzas. Praias extensas de areia batida e escura. Uma paisagem sem cor e sem acidentes geográficos no entorno do seu campo de visão quando olhava para o mar aberto. O que se avista são as areias batidas que mais parecem uma estrada sem fim, não são moldadas por nada, apenas a linha do oceano ora de um azul acinzentado ora de um esverdeado pálido a desenhar uma linha no horizonte, no infinito melancólico que tem à frente. Contraste com o que se tem atrás. Uma cortina de montanhas “negras” que formam a Serra do Mar ainda coberta pela Mata Atlântica. É de um verde profundo que desenha emoldurando o céu azul. Estas são as paisagens que o cercavam em Mongaguá. Cidade turística que lota no verão e se esvazia no inverno. Fantasmagórica.

Seu pai era ferroviário durante o dia e a noite projecionista no único cinema que a cidade balneário tinha. Enquanto não iniciava os filmes “discotecava” os seus discos, sempre orquestrados, nas sessões de cinema.

Neste ambiente acostumou o seu cérebro a olhar quadro a quadro o mundo ao seu redor. Luiz Solha pensa cinematograficamente a paisagem. Tornou-se um exímio desenhista e depois pintor.

Assistir todas as noites um filme vendo a bobina rodar quadro a quadro, formando e dando movimento à imagens congeladas pela fotografia,acabou por moldar o seu olhar e a maneira de ver a vida de forma plástica e pela estética.

Assistiu a todos os filmes hollywoodianos, os da Vera Cruz, a nouvelle vague francesa e japonesa, e os italianos. Filmes que formaram várias gerações na segunda metade do século passado. Consequentemente vivenciou a agonia do cinema quando chegou a televisão nos anos 1970 tirando o seu público que não mais se deslocava pelas ruas até a sala de projeção. Por falta de plateia o único cinema de Mongaguá acabou sendo fechado. Luiz Solha ainda estava na sua adolescência e coincide com sua vinda para São Paulo onde desenvolveu sua carreira artística depois de estudar na Faculdade de Artes Visuais da Fundação Armando Alvares Penteado.

A sua pintura é totalmente influenciada por esta memória cinematográfica, caracterizando a sua maneira de pintar perfeccionista que pode superar as qualidades pictóricas de uma fotografia.

O horizonte do oceano, a movimentação das marés, a “quebração” das ondas de acordo com a Lua e dependendo da estação do ano, sempre se mantiverem na sua memória. O mar sempre significou o futuro infinito ali presente na sua infância.

As pinturas a óleo vistas nesta exposição na Galeria D-Concept, retratam quadro a quadro as Ilhas Cágarras, em Ipanema no Rio de Janeiro. Foram várias manhãs e tardes em de 2015 de registro fotográfico dessa movimentação das ondas e mudanças de luz e tonalidade do mar e do céu.

“Olhei por vários anos consecutivos para o céu refletido na água à partir de um ponto fixo sentado na areia da praia. Sinto o cheiro da maresia e de todos os sons das marés que ainda ecoam dentro de mim. Esta exposição busca mostrar onde reina o silêncio interior das imagens de memoria, mas apresenta internamente em cada pintura os ruídos de cada momento que se desenrolava à minha frente,” comentou sobre este gesto fotográfico de pintar.

É como se prestasse uma homenagem com suas pinturas ao fotógrafo Hiroshi Sugimoto (Tóquio, 1948), ao ver suas fotos da série das Seascapes.

Imagens seriadas que pouca coisa muda na paisagem retratada, como uma longa extensão do tempo. Como no cinema que se constrói quadro a quadro o tempo projetado, de cena à cena. No entanto, surpresas acontecem em oposição ao preto e branco característicos das fotos de Hiroshi Sugimoto.

O que busca retratar é este intervalo espacial e de tempo entre uma imagem e a outra, entre uma onda que se quebra e outra que se forma. Aquele fenômeno que esta entre os olhos do pintor e as ilhas focadas no fundo da tela.

Assim, esse filme banal de uma paisagem romântica quadro a quadro nas pinturas, se espalha pelas paredes das salas expositivas, criando uma linha no horizonte. Como uma longa projeção de cinema em que o movimento vai ser dado pelo observador diante da obsessiva e teimosa repetição das pinturas de Luiz Solha.

RICARDO RESENDE. Junho de 2016.