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yara dewachter-quase verdades
de 23/9/2015 à 24/10/2015.
Quase Verdades

Yara Dewachter encontra nossa reportagem numa tarde ensolarada de sábado, ainda que um pouco fria. Ela marca conosco em uma praça perto de sua casa – “gosto da luz Renascentista”, poderia ter dito a artista, já que é esse o cenário que encontramos. Não as deusas de olhares misteriosos, os heróis seminus ou os edifícios neoclássicos que remetem à arquitetura contemporânea de São Paulo, mas aquele brilho suave e dourado que emana da grama e dos corpos estendidos. “Você me reconhecerá pelos óculos de aros grossos e pela bata colorida”, esperávamos ouvir. Mas uma buzina alta interrompe nosso escrutínio da locação. “Aqui! Aqui!!! Te reconheci pelos óculos de aro grosso!”, ela grita, de uma esquina. “Vamos pra uma padaria! Tô morrendo de fome! Depois a gente volta pra praça.”
Nosso cenário agora é um daqueles estabelecimentos de bairro, algo indefiníveis, entre a padaria e o boteco. A luz vai baixando, mas ainda permanece clara, donas-de-casa entram e saem, crianças jogam bola ao fundo. Começamos a conversa entregando a Yara um rosé de boa safra, daqueles da cor da primeira fervura do chá, paleta recorrente em suas telas (um pequeno presente de inspiração semiótica para tentar quebrar o gelo com a artista). Ela pede um saca-rolhas e entorna o conteúdo em um copo americano, já que a padaria – por assim dizer – não contava com taças limpas naquele momento, nos informa a atendente.
“Oba! Que delícia!” E, para a garçonete:
– Moça, me vê um sanduíche de mortadela, por favor?”

Como você lida com a fama?
Acho que a fama é o reconhecimento por um bom trabalho realizado, mas pode ser uma companheira bastante inconveniente e espaçosa. Felizmente, lido bastante bem com ela, já que não convivemos muito.

Como é a experiência de citar-se e recriar-se a si mesma?
Acho que essa pergunta tem mais a ver com o universo de alguns artistas plásticos que muito me inspiram, mas se eu fosse parar para pensar, diria que nesta exposição brinco com a ideia de conversar comigo mesma e mostrar para o público esse diálogo: como se fosse eu mesma há muitos anos e agora, com os primeiros fios de barba branca querendo chegar – se eu tivesse barba.
Muitas de suas obras retratam bastidores, momentos cotidianos.

Como você faz para mostrar-se sempre presente nelas?
O artista está sempre presente, ou não está fazendo arte. Muitas vezes sento nessa mesma cadeira e fico parada, as duas mãos apoiadas aqui sobre a mesa, apenas olhando o espaço, tentando observar o que está acontecendo naquele momento e naquele ambiente, as pessoas que chegam. Quando consigo, é uma maravilha! Ê-laiá!

Você perde a concentração fácil?
Não, mas tenho a pele seca e sensível, e às vezes me ataca uma dermatite de contato que me coça terrivelmente. Também tenho um filho de 12 ou 13 anos, então o celular não para de tocar, você pode imaginar.

Isso poderia ser tema de uma próxima série?
Prefiro falar sobre o meu trabalho atual, se não se importar... [ela fica séria subitamente. Neste momento, viraria o rosto para a rua e teria acendido um cigarro. Yara, contudo, não fuma. Ela cai na gargalhada.] Desculpa, “tava” brincando! [risos] Quem sabe? Tudo é arte.

Tudo é arte? E todo mundo é artista?
Se todo mundo faz arte, quem faz arte? E se todo mundo faz arte, quem é que fica de olho no resto? Uma coisa é certa: se eu faço arte, qualquer um pode fazer.
Você está se autodepreciando! Sua obra é mundialmente admirada!
Costumo dizer que “o horror e a escuridão fazem com que a esperança e a luz fiquem ainda mais claras e luminosas.”

E com relação ao seu processo criativo? Como você faz para entrar na mente de seus retratados?
Se eu te contar, você vai achar clichê! Acordo no meio da madrugada, tenho muita insônia, e esse é o melhor horário para criar. Também adoro fazer ginástica logo cedo, é isso que me dá pique para criar e conciliar as múltiplas facetas da vida: artista, mãe, mulher, esposa... [Yara se interrompe subitamente]. Desculpe [séria e penetrante]. Queria apenas saber como fica isso dito em voz alta. [Em tom de confidência] Sou mãe de um menino de 12 anos, tenho três cachorros, marido, uma casa para cuidar... O que acontece na verdade é que todos esses papéis vão sendo atirados na nossa cara e o que a gente precisa é ir lidando com cada um conforme consegue. Se minha vida fosse desse jeito, eu provavelmente não daria conta de nada.

Como você virou artista?
Foi questão de sobrevivência. [Ela desviaria o olhar.]
Como assim, você chegou a passar necessidades?
Não é sobrevivência material. A arte é necessária porque não é essencial. Também poderia dizer que morreria se não fizesse arte, que ela é tão necessária quanto o ar que respiro... Mas se passei necessidade, foi de fazer algo diferente do que fazia antes. Eu já tinha uma carreira antes, mas ela deixou de fazer sentido. Me estressava, me cansava.

Você tem algum trauma ou aversão? De onde vem tanta perturbação explícita em suas imagens?
Perturbação?! Ooondeeee? [Yara alonga as vogais e as eleva a um tom agudo]. Não vejo tanta perturbação, ou provavelmente não faria... Mas se tem algo que odeio, são apelidinhos ridículos. Aqueles que terminam em “ito”, “êra”. “Fernandita”, “Juzêra”... Me irritam profundamente! [Ela bate com força na mesa. Ela teria batido com força na mesa].
E para finalizar, Yara Dewachter por Yara Dewachter.
[O celular toca. É seu filho de 12 ou 13 anos. Ela começa a conversar com ele, deixa o dinheiro do sanduíche de mortadela sobre a mesa e vai se levantando. Yara se coça. Sem deixar de falar ao telefone, ela se despede da reportagem com um beijo e um aceno. Yara vai deixando a padaria-boteco. Sua camisa ampla poderia se parecer com uma tela em branco, se fosse branca. Mas não é. Yara some na luz pós-renascentista do fim de tarde.]
Erin Falcon